Por que o Rio Itapetininga transborda? Entenda a geografia, a história e os desafios do curso d'água

Imagens aéreas mostram extravasamento do Rio Itapetininga em bairros rurais do município O Rio Itapetininga voltou a chamar a atenção desde o começo de set...

Por que o Rio Itapetininga transborda? Entenda a geografia, a história e os desafios do curso d'água
Por que o Rio Itapetininga transborda? Entenda a geografia, a história e os desafios do curso d'água (Foto: Reprodução)

Imagens aéreas mostram extravasamento do Rio Itapetininga em bairros rurais do município O Rio Itapetininga voltou a chamar a atenção desde o começo de setembro depois de subir de nível e provocar alagamentos em áreas próximas às margens. Para entender por que a água chega a esses pontos, é preciso olhar para muito além do trecho que passa pelo município. Com quase 300 quilômetros de extensão, o rio recebe água de diversos afluentes ao longo do caminho e atravessa diferentes paisagens até chegar ao Rio Paranapanema, onde deságua em Campina do Monte Alegre. 📲 Participe do canal do g1 Itapetininga e Região no WhatsApp O g1 conversou com o professor e engenheiro ambiental Vinicius Valio, que estudou o Rio Itapetininga e sua qualidade da água, e com o documentarista Maurício Hermann. Eles explicam a formação do rio, o caminho percorrido pela água, a relação com a cidade e alguns dos principais problemas ambientais encontrados ao longo da bacia. Um rio de planície e cheio de curvas Ao contrário do que pode parecer nas imagens feitas durante as cheias, o Rio Itapetininga não é um rio reto. Segundo Maurício, o curso d'água é bastante sinuoso e serpenteia pela planície. Ele explica que o rio pode ser dividido, de forma geral, em áreas de alta, média e baixa bacia. "Ele serpenteia bastante, porque é um rio de planície. Eu classifico como baixa, média e alta bacia. Na alta bacia, fica numa área mais preservada do rio, apesar de ter ao longo do rio diversos conflitos ambientaism nesse lado da alta-bacia, ele tem menos conflitos", aponta. Mapa mostra todo o percuso do Rio Itapetininga (SP) Google ©2026, Google BR De onde vem o Rio Itapetininga? Uma das curiosidades sobre o curso d'água é que ele não esse nome por toda a sua extensão. Segundo o professor Vinicius Valio, o Rio Turvo é um dos principais formadores do Rio Itapetininga. O Turvo se encontra com o Rio Pinhal Grande e, a partir desse ponto, o curso passa a ser chamado de Itapetininga. "O rio se chama Itapetininga a partir do momento que junta esses dois rios, pouca gente sabe disso. E ali na 'nascente', entre aspas, do rio Itapetininga, o Rio Turvo já passou por muitas situações. Por exemplo, lá no distrito do Turvo, que pertence à Tapiraí, mas que está na bacia do rio Turvo, já é feita a captação de água para abastecimento", explica. LEIA TAMBÉM: Após afetar mais de 300 casas em Itapetininga, cheia de rio atinge bairros de Sarapuí VÍDEO: cava de porto de areia fica alagada após rio transbordar em Itapetininga VÍDEO: imagens aéreas mostram estragos causados pela cheia do Rio Itapetininga Trecho do Rio Itapetininga no bairro do Porto, em Itapetininga (SP) Wellington Rafael de Oliveira Almeida Antes de chegar a esse ponto, o Rio Turvo já passa por diferentes áreas e recebe intervenções relacionadas ao abastecimento. No distrito do Turvo, que pertence a Tapiraí e está inserido na bacia do rio, há captação de água para abastecimento, segundo o professor. A partir da formação do Rio Itapetininga, a água segue por diferentes municípios até chegar ao Rio Paranapanema. Ao longo do caminho, o Rio Itapetininga recebe água de diversos afluentes. Em Itapetininga, entre eles estão o Ribeirão do Chá e o Ribeirão dos Cavalos. Os dois cursos d'água se encontram e, posteriormente, levam suas águas até o Rio Itapetininga. Essa dinâmica ajuda a explicar as cheias. Segundo Vinicius, conforme o rio avança, recebe mais afluentes e a bacia também vai ficando mais plana. Quando o volume de água ultrapassa a capacidade da calha regular, o rio ocupa a chamada planície de inundação. "À medida que o rio vai seguindo o seu curso, vai recebendo cada vez mais afluentes, tanto na margem esquerda quanto na direita. E ele vai também diminuindo, a bacia vai ficando mais plana. Quando a gente tem o transbordamento da calha regular do rio, ele acaba indo para o que a gente chama de planície de inundação", explica. O professor ressalta, porém, que isso não significa que grandes cheias aconteçam todos os anos. Segundo ele, o nível observado atualmente é mais significativo do que em ocorrências anteriores. Curso d'água é bastante sinuoso e 'serpenteia' pela planície Wellington Rafael de Oliveira Almeida Por que Porto e Alciati são mais afetados? O relevo e a contribuição dos afluentes ajudam a explicar por que alguns trechos próximos ao Rio Itapetininga são mais vulneráveis. Segundo Vinicius, na região do Bairro do Porto o terreno já é mais plano e o rio recebeu água de vários afluentes. Mais abaixo estão bairros como Alciati, Curuçá e Pescaria. "Ali no Porto, ele já recebeu água de vários afluentes e já começa a apresentar com mais significatividade essa área mais plana, de planícies ao entorno do rio. O Porto é onde começa, mas depois do Porto você tem o Alciati, Curuçá, Pescaria. No Curuçá é pior ainda, porque a gente tem os dois córregos que drenam Itapetininga, que é o Ribeirão do Chá e o Ribeirão dos Cavalos", explica. Rio Itapetininga atingiu oito metros acima do normal Defesa Civil/Divulgação Na região do Curuçá, a contribuição dos cursos d'água que drenam parte da cidade é ainda maior, pois parte da água das chuvas que chega aos ribeirões do Chá e dos Cavalos segue para o Ponte Alta. O excesso, então, chega ao Rio Itapetininga. Em 12 de setembro, o transbordamento do Ribeirão Ponte Alta chegou a provocar alagamento em um trecho da Rodovia Raposo Tavares, onde um carro ficou submerso após o motorista tentar atravessar a área alagada. Chuva causa alagamento, erosão e queda de parte de ponte no interior de SP Itapetininga registrou o mês de setembro mais chuvoso dos últimos dez anos. Segundo o Centro Integrado de Informações Agrometeorológicas (Ciiagro), foram registrados 259,5 milímetros de chuva até este sábado (19). O índice é 79% superior a 2022, que anteriormente ocupava a primeira posição, com 145 milímetros. Ocupação das margens aumenta os impactos Além das características naturais do rio, a ocupação das áreas próximas às margens também influencia os impactos das cheias. Maurício afirma que os trechos rurais próximos ao Porto e ao Alciati são historicamente áreas onde o rio extravasa. O problema, segundo ele, é que essas regiões também passaram a ser ocupadas por ranchos e outras construções. "Quando a gente conversa com as pessoas mais antigas, elas falam que o Rio Itapetininga não é um rio que tem sempre esse tipo de cheia. Há algumas pessoas mais antigas que falam que, em média, de 10 em 10 anos ocorre uma grande enchente. E aí, como nós somos cada vez mais parte dessa área ocupada, todos esses ranchos acabam sendo afetados", analisa. Veja imagens dos estragos causados por cheia de rio em Itapetininga Para o pesquisador, as construções próximas às margens acabam ficando mais expostas quando o rio extravasa. "É interferência antrópica. De uma certa forma, o rio tende a extravasar, mas essas construções acabam sendo afetadas porque elas estão praticamente coladas ao rio", complementa. Trecho do rio que passa pelo bairro Alciati, em Itapetininga (SP) Wellington Rafael de Oliveira Almeida Mata ciliar e o efeito 'esponja' Outro problema apontado por Hermann é a retirada da vegetação das margens. Segundo ele, em diferentes pontos da alta e da média bacia, o Rio Itapetininga perdeu parte da mata ciliar. "Essa mata ciliar ao lado do rio funciona como se fosse uma esponja. Nesses locais que têm essa mata ciliar, o rio tende a transbordar menos. Não que ele não vai transbordar, mas ela é uma barreira natural", explica. Para o documentarista, a recuperação dessas áreas seria uma das formas de melhorar a relação entre o rio e o território. "Se eu fosse dizer o que eu faria inicialmente no rio, era um projeto de recuperação de mata ciliar. Não sei dizer em quilometragem, mas já rodei bastante desses 300 quilômetros e há bastante locais que o rio perdeu a sua mata ciliar", afirma. Trecho do Rio Itapetininga no bairro Porto, região de ranchos em Itapetininga (SP) Wellington Rafael de Oliveira Almeida Agrotóxicos e outros impactos ambientais A retirada da vegetação não é o único problema ambiental apontado pelos pesquisadores. Maurício também cita a presença de resíduos de agrotóxicos como um dos desafios enfrentados pelo rio. Segundo ele, em algumas propriedades, a forma de manejo do solo pode favorecer o carregamento desses resíduos até o curso d'água. "O pessoal acaba muitas vezes, muitas propriedades, não fazendo em curvas de níveis adequadas e esse resíduo acaba chegando até o rio", afirma. O estudo realizado por Vinicius também identificou impactos relacionados às atividades desenvolvidas ao longo da bacia. O professor analisou a qualidade da água durante um ano, com pontos de coleta distribuídos desde a região da nascente até a foz, além de um ponto no Ribeirão Ponte Alta, que recebe o efluente final da estação de tratamento de esgoto de Itapetininga. O estudo apontou que, ao longo do percurso, a água sofre diferentes impactos, entre eles os relacionados ao lançamento de esgoto Imagem mostra 'curva' do Rio Itapetininga (SP) próxima à cava de escavação Wellington Rafael de Oliveira Almeida O rio que abastece a cidade Apesar dos problemas ambientais, o Rio Itapetininga tem uma função essencial para a cidade: é responsável pelo abastecimento da área urbana. Segundo a Sabesp, o Rio Itapetininga é o principal manancial do município. A Estação de Tratamento de Água (ETA) Itapetininga, que utiliza o rio para a captação, atende aproximadamente 160 mil pessoas, cerca de 95% da população estimada de 164.687 habitantes. O município possui 66.378 ligações de água, das quais 58.400 são atendidas pelo sistema de abastecimento que tem o Rio Itapetininga como manancial. Já os distritos de Itapetininga contam com sistemas próprios de abastecimento, principalmente por meio de poços artesianos. A captação de água ocorre na região do bairro da Chapadinha. Depois, a água segue para tratamento na estação localizada na Rua Virgílio de Resende. O estudo de Vinicius apontou também que a região da Chapadinha apresentou a melhor qualidade da água entre os pontos analisados no Rio Itapetininga. Ainda há vida no rio? Apesar das mudanças provocadas pela urbanização e pelas atividades realizadas ao longo da bacia, o Rio Itapetininga ainda abriga diferentes espécies. Maurício afirma que percebeu uma redução significativa na quantidade de peixes em comparação com outros períodos, mas ressalta que ainda é possível encontrar diferentes espécies no rio e animais que dependem do ambiente. "A gente percebe que, comparado com outros tempos, o Rio Itapetininga teve uma diminuição grande de peixes. Mas ainda se encontram diversas espécies, não só de peixes, como de animais à margem", conta. Financiado pela Lei Aldir Blanc, o documentário "Rio Itapetininga e Seu Significado Cultural", lançado em 2021, foi produzido pelo coletivo Aliança Socioambiental (ASA), que trabalha com projetos audiovisuais, educação ambiental e sustentabilidade. A obra pode ser conferida no link. A história e o futuro do rio O Rio Itapetininga também teve importância para a história do município. Vinicius contou ao g1 que o Bairro do Porto recebeu esse nome por ter sido uma área ligada à navegação pelo rio. O local também era utilizado para pesca e fazia parte das rotas de tropeiros que transportavam gado vindo do Sul do país. A atividade dos tropeiros permaneceu importante até as décadas de 1940 e 1950, quando o transporte ferroviário e, posteriormente, as rodovias passaram a ocupar um papel maior na circulação de pessoas e mercadorias. Para Vinicius, as mudanças no comportamento das chuvas também precisam ser consideradas ao analisar o futuro do Rio Itapetininga. Segundo o professor, durante muito tempo era possível trabalhar com médias históricas de precipitação. "Até hoje, eles não conseguiram estabelecer uma periodicidade. (...) Mas a gente tinha médias. Se sabia que aqui em Itapetininga chovia mais ou menos 1.300, 1.400 milímetros por ano, mas isso vem mudando", finaliza o professor Vinicius Valio. Em nota, a Sabesp informou que realiza o monitoramento sistemático da qualidade da água, de acordo com a legislação vigente e os padrões de potabilidade estabelecidos pelo Ministério da Saúde. "As análises contemplam amostras coletadas na captação, nas etapas do tratamento, nos reservatórios e na rede de distribuição e são realizadas em laboratórios de controle de qualidade, com ensaios acreditados pela norma ISO/IEC 17025", diz a nota. Conforme a companha, não há projetos ou estudos em andamento para a construção de barragens no Rio Itapetininga, pois o sistema existente atualmente atende à demanda de produção de água do município. A prefeitura informou que a profundidade do rio varia de acordo com a época do ano, podendo ter menos de 60 cm em períodos de seca até ultrapassar os 4 metros durante as cheias intensas. Em Itapetininga, ele passa nas proximidades de bairros como Chapada Grande, São Gonçalo, Vila dos Pescadores, Alciati, Porto, Sotemo, Porto Velho, Registro Velho, Curuça I, II e III, Itarecreio e Rechã. Initial plugin text Veja mais notícias no g1 Itapetininga e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM